Thursday, November 19, 2009

Tráfico de influencias

Há uns bons trinta anos eu não tinha rugas na cara e era testemunha de um tráfico inusitado de influencias.
Era corrente tocarem à campainha vizinhos desconhecidos, ou não, chegados ao engodo da aura de poder, que era conferida pelo carro do estado, e respectivo motorista às ordens todas as manhãs, para pedinchar os mais variados favores. O meu pai a todos ouvia atento, um emprego para um filho, um lugar no lar para uma sogra com alzheimmer, enfim, qualquer atenção do estado.
Ele tinha a fraqueza de não dizer não, ou tão só o desejo de fazer bem ao seu próximo, a eito, sem destinção. Logo se agarrava à agenda, e telefonava para este ou aquele, à procura de fineza para quem ele nem sabia quem era, ou se era de tal merecedor.
Cresci no respeito por este elementar tráfico de influencias, talvez uma ética republicana de servir sem olhar a quem, ou uma pequena corruptela do poder possivel, de proximidade. Mas cresci nessa disponibilidade para os outros, assim ensinado pelo mais íntegro dos homens de poder que conheci.

3 Comments:

Blogger JPN said...

olha, comoveste-me, também me lembro desse homem íntegro e fascinante. abraço

6:50 PM  
Blogger Navegadora said...

"Temos que ser uns para os outros", "ajudar o próximo", diz o povo sábio.
Tráfego de influências parece-me ser coisa diferente, acho que é coisa sem bondade, nem coração, acho... mas posso estar enganada.

9:59 AM  
Blogger João Paulo Pedrosa said...

Eh pá, há que tempos não deixas aqui umas impressões. Fica aqui um vazio... vinha aqui ver se é verdade que fazes anos...

1:38 AM  

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