Saturday, February 10, 2018

Deus consta que existe, mas não se lembra Barbinha de o ter visto algum dia. 
Barbinha está já enfadada com o tempo, ele é só busaranhos, o panamá russo não lhe para na cabeça, o seu praguejar ágil percorre cerros e barrancos num trovejar de maus modos. Nada é a desejo, só ventanias e do mais, minguas.
Traz a burra pela arreata, vem da serra com o carrego das arreigotas para aquecer as casas aonde se recolhe mais o besto que percorre o corredor até ao quarto do fundo, chão de terra, rocha e palhas trigueiras, eis o soalho dos seus cómodos.
Barbinha dorme na sala da salgadeira, não casou, ao menos ninguém lhe apoquenta, só se rala com a vida que lhe calhou farrusca e empoeirada, para a sua mesa sabe-o ela, não há ninguém que se faça convidado. Miga couves com farelos para as galinhas, dá a serralha aos coelhos nas gaiolas, levanta a saia para dar de corpo no quintal, o dia já aborrece mas não se completa sem entrar na venda do António, sempre tesa, espanta as conversas como se fossem moscas, só quer molhar o bigodinho tenso num bagacinho antes de recolher à enxerga pelo sol-posto. Sai tão mal encarada como entrou, resmordendo coisas no seu modo de carapeto seco. O vento é que não se cala.


Nunca Barbinha viu a Deus, mas a um bom naco de toucinho ela diz Amen.

Thursday, February 08, 2018

_ Não te dói nada?
- Ora, não! Tinha que doer?
Anda aí uma sinfonia dos ais: ai isto, ai aquilo, ai a perna, ai as costas, ai agora: foi até para isso que se inventaram os virtuosos, para acudir a essas dores do esqueleto e suas carnaduras, excluindo bem entendido o ai amor que pertence a outras avarias.
Eu, é mais nas costas, não sei como foi, que me custa mexer o braço, nem uma punhada em condições consigo dar sendo caso disso. Mas aonde vou?
É só pantominas, havia um no Algarve, o Idalécio, grande disparate de homem, tinha mais de cem quilos, certo dia fui lá com o meu pai e andava ele de posse de um homenzito pequenino, levantou-o no ar agarrado pelas mãos, quando o largou disse que já estava amanhadinho, só assim, mais nada, o outro abalou deixando uma nota, mas pelo andar via-se que ia tão torcido como para lá entrou e ainda com menos qualquer coisa. O ucraniano que havia aqui era outro, tinha sempre freguesia e vinda de bem longe, era um corremaço de gente, mas chegava-lhe bem na bebida, até se me endireitaram logo as costas quando certo dia o vi de joelhos aos saltos em cima do lombo de um sujeito que lá foi cair a queixar-se dos bicos de papagaio. Abalei de costa bem direita, ainda que me doesse, enquanto o outro se amanhava lá com o bafo a aguardente e as calcadelas que o Yuri lhe dava. Ná! massagens e pantominas até sei como principiam, agora como acabam, isso já é outra história…
- Hé companheiro!- Assim bradou o homem comprido e com três cabelos.
O homem era estranho, vestia-se mal, parecia gente da passa, mas falava bem, com bonita maneira. Eu estava desmanchado das costas e tinha que andar a cavar com um pique e já não tinha maneira de estar. Ele trazia um frasco grande da tofina na mão com uma caldivanada amarela aonde boiavam umas cabeças de alho, dizia ser tratamento para as costas, coisas naturais, era só esfregar cachaço abaixo e ficava logo bom e não queria receber dinheiro, bastava-lhe fazer bem a alguém que já recebia em felicidade. Tanto falou de olhinhos a brilhar como estrelas, que dei comigo na cama, de roupa puxada para cima- estava lá a mulher comigo, não se ria que não tinha maldade nenhuma-, e o homem todo contente a untar-me as costas lá com o líquido dele. Bem, parecia melhor até me querer mexer, mal tive ideia de me levantar, as dores eram facas na espinha. Adeus, adeus, Deus lhe pague que não tenho troco.
Ah! Fado de um cabrão!

Wednesday, February 07, 2018

Podia ser carnaval mas era dia de funeral.
A meio da manhã, na Venda da Cruz, já ao balcão diante daquele pássaro, muitos copos de tinto estavam despejados. Estava quase na hora de sair para o cemitério mas a algazarra era muita, galhófa, esquilas a retinir, o homem de cabelinho branco e barriga de vida airada, era o cómico eterno de todas as larachas. 
- Estás desmorecido porquê, ò toleirão?- Arremeteu ele 
- Tio! É o funeral do meu irmão.
Já nem ouviu a resposta, o seu carnaval seguiu para outra esquina, arrastando os pés.
Ficámos todos a murmurar que toda a vida foi assim, nada lhe chega ao pêlo, é festa em todas as horas e lugares enquanto viva, nunca fez nada, a sorte foi ter-se empregado no estado aonde se foi rindo e queixando de dores nos intervalos da risota.
- Fui sempre parvo! Mas olhem, tenho mais dinheiro do que terra.
E continuaram as proclamações até à hora das despedidas. Nós por cá, vamos cavar na horta, ajuda a levar a vida.


Clemente Pestana é um coração sem eira nem beira, rara doença do espirito para a qual não sabe de paliativo, talvez o tempo lho construa.
Não sabemos em qual esquina da vida se estragou, diz que já amou, demais até, largou a pele e a alma até perder o norte e esvaziar-se. Como é seu costume não foi nada, sobreviveu, a vida é um lugar de surpresas, encantamentos, e essa porta aberta ao desconhecido que espreita, deu sentido a uma forma de solidão escolhida. Tem dias em que estar só é apenas consentido, falta-lhe alguém a quem abraçar em casa, alguém para dizer que não é nada, nada há que temer, estamos aqui. Outros dias em que saboreia não precisar mudar nada no seu quotidiano caótico, poder fazer tudo ou nada e sem tensões ácidas. Volta e meia, muitas vezes se encanta por esta ou aquela mulher que lhe ofereça a benevolência de para ele olhar, todas sente magnificas, por isto ou aquilo que umas têm e outras não, todavia o caos sensível. Ele, incompleto, gostaria de as agasalhar a todas no seu coração se isso coubesse na vida.


Diz estar exausto de sofrer e fazer sofrer, será uma desculpa que arranja para si mesmo, ser sem consequência? Estará cansado de viver demais, pensar demais? Comove-se com os casais cúmplices que vê sentados em restaurantes, com os beijos apaixonados e os olhos brilhantes dos amantes que vê por aí, como nos filmes. Aliás adora ver filmes de amor, com muito amor, sofre de ternura. E caos.
Tenho setenta anos e não tenho natureza para estar sentado a ver os urtigões crescer na minha rua. As minhas ruas não têm uma erva e andam varridas. Fiz esta quinta, abrindo póços, plantando o olival, amanhando as casas, colhendo todas as pedras, e aqui arranjei vida para criar quatro herdeiros. Trabalhei muito, de dia e de noite, e ainda não parei. Nesta idade já me não sobeja tempo, nunca sobejou, aliás.
Letras não tive, o meu pai, que Deus tem, não viu meios de me por na escola, mas nem por isso me atrapalhei. Aliás, um homem atrapalhado é pior que uma mulher bêbada, não gosto nem de ver. Se algo me falta, é o meu mais velho, já se foi, deu-lhe um tartaranho assim de repente, ainda nem cinquenta anos tinha, cantávamos os dois modas, quando matávamos os porcos ou pela Festa. O cante, a voz, acabou-se-me aí, nesse dia em que me vieram dizer que caiu morto, de repente, sem dar fé nem ui.
Vim para cá há cinquenta anos, na mesma altura, ali ao lado, na Cozinheira, morava o senhor professor, vindo de Lisboa. Nada sabia da vida do campo, veio com ideias de se fazer lavrador, fazendo fé das coisas que lia nos livros. Assim é hoje o neto dele, bom rapaz embora custoso de entender. O senhor professor acordava cedo e corria a quinta em pijama, se fosse Verão vestia uns calções e andava de perna à mostra, aos saltos por cima dos restolhos. Também tinha um capacete, esquisito e branco, como já vi na televisão nos filmes das Áfricas. Mandava semear a quinta com aveia e cevada, algumas vezes me deu a aceifa de empreitada. Tinha uma vinha que dava trabalho ao pessoal, azeitona e um laranjal que mandou dispor. Tinha a mulher em Lisboa e uma amiga que avistava às escondidas. Mas mal escondida. Era uma mulher fina, de óculos escuros que ia e vinha num carro sem capota e que algumas vezes se deixou ver de fugida. Foi por ela que um dia, pela manhã, ainda de pijama e com os cabelos todos no ar, ele mandou o Barranha, que lá trabalhava, no mês de Maio ir podar uma figueira que estava no meio de uma seara de aveia, bem longe de casa, lá na outra ponta da quinta.
Olho para a velha a dormir, ao lado na cocheira, está a mula a dormir em pé, bate com os cascos no chão, não me deixa dormir, sou nervoso e passo as noites a esgravolhar na vida, penso que se amanhã eu abalar, cresce a matiçe nesta quinta que fiz por minhas mãos, ninguém irá caiar os muros nem o portão, os pastos chegam à altura das árvores, a mulher vai ter que sair daqui para casa dos filhos, a mula vendida aos ciganos e as capoeiras ficam vazias, sem um galo que cante. É assim a vida, muita obra, muita guerreia, mas tudo está por um fio, um sopro.

Wednesday, December 27, 2017

Ajudada pela fé, Dona Silvina foi sempre decidida e animosa nos caminhos do bem. Reinava no monte de São Bento desde que vinda do seu verde Minho, por comboio e carros de parelha, ali chegou com as suas arcas de enxoval e dobrões de oiro de lavradora minhota para desposar o lavrador Vargas, homem imponente em terras e tamanho, trajando a capote, insigne bigode e chapéu de ganadeiro como lhe pertence.
O casório foi tratado por sua madrinha de vastas e beatas influências, ter tido um casamento romântico não foi questão que se lhe colocasse, poder governar uma casa assim, ter meios para ter criadas em quantidade, frequentar dignamente as missas e novenas, poder obsequiar a paróquia, ter um nome respeitável, eram prendas mais do que suficientes para uma mulher da sua condição.
Mariana, filha de um porqueiro, servia lá em casa, já estava ensinada a cumprir com as dobras dos lençóis na cama, com a conta certa do açúcar no chá, fazia esses de limão, era quase uma boa criada para os apertados critérios de Dona Silvina. Naquele dia em que o ventre avantajou aos olhos da Senhora, começou a desmerecer rápido.
- Quem é o pai?- Perguntou a lavradora receosa, isto com os homens, mais a mais de posses, nunca se sabe, há sempre alguma disposta a tentar.
Mas não, desta vez não foi o lavrador a atentar nas delícias do paraíso escondido, foi o Gil, servente nas cocheiras do monte, quem no pouco vagar que as bestas lhe davam, ainda teve artes de se ir rebolando nos fenos com a Mariana e dessa paródia começava a avultar resultado. Estava pejada!
Ficou chocada Dona Silvina, a sua casa era decente e temente a Deus, não esperou que Vargas viesse do alqueve para de lá por a mexer o casal lascivo que se foi acolher à aldeia. Quando a criança nasceu, enraladinha, mas loira e branquinha como a farinha trigal, nenhum dos dois tinha trabalho, estavam dados à caridade de parentes. A extrema angústia levou-os a bater novamente à porta de Dona Silvina, não tinham meios de alimentar a criança, comprar o leite do boticário, pois Mariana estava seca.
Dona Silvina condescendeu em recebê-los, tinha enviuvado havia pouco tempo, um tartaranho fatal levou-lhe o lavrador e vestiu-se-lhe o negro para o resto da vida. Dona Silvina não parecia conhecer comoções com as penas alheias, mas não deixava geração e talvez se encantasse com olhos azuis da menina, talvez lhes encontrasse pedigree na primeira comunhão, vendo bem poderia ter uma afilhada. Com a maior das clarezas ditou a sua lei:
- Primeiro, casamento!
- Segundo, baptizar a menina de Beatriz, nome da minha mãe que Deus chamou.
- Terceiro, se a menina se portar bem e for aplicada nos estudos, providenciarei fazer dela professora, profissão muito adequada a uma mulher de respeito.
- Quarto, nem pensar em terem mais filhos! Se tal acontecer vão outra vez para a rua, o mundo é comprido, tratam de desaparecer mais a gaiata.
Ficaram contentes e aliviados mas logo perceberam que a lei de Dona Silvina continha mais extensões e clausulas, e que as tiranias são omnipresentes e omnipotentes como Nosso Senhor. Gil e Mariana dormiam sob o tecto da lavradora em quartos separados de modo a que não se produzissem intimidades, ela continuava a servir, ele era moço de recados, ia à cidade fazer avios de compras levando um seirão de empreita que tornava cheio de mercearias e comeres. Assim foi envelhecendo, alargando e atarracando, homem casado sem mulher, alvo da chacota dos outros que o desafiavam a desobedecer à tirania da soberana do monte, mas Gil só pensava na gaiata, em vê-la professora.
Foi o dia mais lindo da sua vida, a filha, professora de escola primária.
Gozou-o pouco tempo, no dia seguinte ainda teve tempo de num relâmpago ver chegar o sonho de Mariana, dizem que muito sonhamos ao chegar ao último corredor da existência, tudo nos aparece donde ninguém volta para contar, vinha ela deitada nas palhas da cocheira, tal qual o foi na noite em que foram homem e mulher e se misturaram uma só vez em vida.

Dona Silvina, tirana e decrépita, pagou um lindo funeral ao pai da sua afilhada.
Não sei da planura e pouco me demoro em tremidos aléns
tudo é seco nesta agonia de papoilas, palhas caídas
morro de amor tantas vezes mais
em que és o poço
e eu a sede.

Tuesday, December 26, 2017

É no desagasalho dos pássaros que me chegas
Límpido azul-cobalto nas pausas da conversa, tens as mãos mais macias do mundo das minhas.
Agora chegas em sonhos de quando durmo apaziguado, já não com o brilho de outrora
És um sonho difuso e as mãos são folhas vegetais, não és alto mas tens ares de sequóia
E a mesma altivez da palavra que escreve quando falo
Sou sempre capaz de te achar entre giestas e torgas ou quando bebo vinho
Quando corto a nortada, ou me dou ao sol nos pedaços de mar que ambos levamos.
És todavia, o mistério que me é eterno.
Quando eu e o Dick viemos para cá, este era um país calmo, não havia comunistas, o Salazar não deixava.
Temos uma vida pacata, não vemos televisão, não queremos saber dos desmandos deste mundo, das guerras, destes papas inimigos da tradição, da miséria que para aí há. Não pense com isto que me não importo com os demais, toda a vida fui voluntária, na Cruz Vermelha, na Cáritas, na luta contra o cancro que agora me roi por dentro, sei ver a bondade no olhar das pessoas e dar graças por quem me faz o bem. Todos os dias rezo um Pai Nosso pelo meu pai, um santo a quem os comunistas mataram. O Dick faz traduções de inglês, temos pouco dinheiro mas de pouco precisamos, nem casa temos, vivemos num apartamento alugado em Benfica, não tivemos filhos, nem sei bem quem vai ficar com os meus livros, minha companhia de toda a vida. A minha vida agora que me mexo mal, é ler na marquise enquanto fumo, o Dick vai às compras, traz o Daily Mail, já pouco posso sair, são oitenta e três anos, fazemos tempo nem sei bem para quê, talvez nos irmos despedindo um do outro.
Em Génova fui tão feliz quanto infeliz, o meu pai era um homem bom e que bem serviu o Duce, um pai dedicado e carinhoso, não perdoo o que lhe fizeram e à nossa familia a quem espoliaram de tudo. Os comunistas são pessoas más que cobiçam o que é dos outros, não olham a meios para destruir quem tenha alguma coisa, se visse a cara de felicidade, a berraria daquela gentalha mostrando o meu pai morto e dependurado num candeeiro, tal como fizeram ao Duce e à Petacci, gente que andou comigo no liceu a cuspir à minha passagem, que invadiu a nossa casa e levou de lá tudo quanto pode, só deixando excrementos pelo chão. A minha mãe agarrou em mim e na minha irmã, fugimos para casa do tio Matteo no Piemonte aonde nos escondemos até que as coisas acalmassem, quando voltámos a Génova já nada era nosso. Poucos meses depois do fim da guerra a minha mãe faleceu, mais de desgosto que de outro mal qualquer, a minha irmã arranjou namoro com um primo e lá se organizou. Eu cruzei-me com o Dick numa esplanada, era amável, falava sereno em voz baixa e trajava à civil quando não, lhe não teria dado a minha atenção, estava de licença, era soldado de infantaria, inglês todavia. Só casei com ele porque me prometeu nunca ter morto nenhum italiano, apenas esteve a combater alemães.
Hoje é Natal, vamos jantar a casa da Maria de Fátima e do José, levamos uma garrafa de Nocello, têm a amabilidade de nos convidar sabendo que não temos mais família, são muito agradáveis e atenciosos, o filho deles é educado e gosta de conversar com o Dick sobre pássaros, tocamos à campainha e o José aparece sorridente, gravata grená, um firme passou bem com ambas as mãos, tem uns olhos que me não enganam, trata-se de boa gente.

É verdade, apesar de serem das esquerdas são boas pessoas. Feliz Natal!
O maldito tinha mesmo sido um doidivanas, que arruinou o nome da família para toda a eternidade sem se dar conta de tal, foi no dia em que a cigana Lucinda, mulher graúda e de sensualidade bravia, imanando fogo de giestas e de lume de suas saias rodadas, estacionou na avenida chegada num circo, e após variadas tropelias nocturnas, achando-se despeitada, mexeu os lábios carnudos e em fogo rogou:
- Maldito sejas até ao fim dos dias e que o teu nome não volte a vingar, assim como o sal não deixa vingar a tenra erva.
Não nasceu ele para trabalhar, sendo filho de uma grande fortuna de Trancoso, o boticário José Paulo da Silva, um zé-ninguém nascido em Souto Maior e que emergiu com o liberalismo a poder de trabalho, poupança, e boas companhias politicas, deixou tal pai em herança uma fortuna colossal em numerário e propriedades, à qual os herdeiros António Augusto e José Paulo do Nascimento, deram diferentes fins.
 António era um maçónico filantropo, acreditava nas virtudes da instrução, força libertadora do ser humano oprimido na sua própria boçalidade ignara, à mercê da igreja e dos poderes. Era republicano, laico, socialista, e como tal aplicou a sua herança no ensino voluntário, gratuito e generalizado de todos os que se apresentassem à sua escola. Alguns raros labregos escaparam à sua condição a poder de estudo e leituras, mas o correr do tempo não foi de consolo, encarregou-se de o reduzir à inexistência própria de quem não deixou geração.
Já José Paulo era um epicurista, a política não lhe interessava para nada, nem fazia questão de mudar o mundo, queria era desfrutar da vida, apanhar o Sud Express em Vila Franca das Naves, fosse para Lisboa ou Paris, aonde se ia espantar com as luzes do progresso triunfante, cidade das luzes, dos bons prostíbulos, ir à ópera, cortejar quanto mulherio houvesse, amesendar-se em bons restaurantes, era esta a sua vida feliz. Muito penava sua mulher Leonor, não chegou a velha de tantas ausências e arrelias, nunca se esqueceu dos murmúrios públicos, como o tal em que quase surpreendeu José Paulo, noite fechada na quinta de Pai Penela, em que segundo os falatórios entrou Leonor, enquanto uma amásia saía lesta pelas portas traseiras direita à arramada, descomposta e com peças de roupa em falta, na pressa de se montar em sua égua pigarça e se fazer à Fonte Longa de onde era.
José Paulo do Nascimento aplicou-se em converter metodicamente uma grande fortuna numa exígua fortuna. Finalmente já viúvo, ainda arranjou mais uns quantos filhos, a juntar aos três do matrimónio, os Caçapos, filhos da Rita Caçapa, criada de servir de sua santa e falecida senhora. Quem não gostou da ideia foi a sua mãe, Dona Casimira, viúva do boticário, teimou em chegar aos cem anos, mantendo em si a salvo uma parte da herança do marido enquanto via ser delapidada a outra parte pela voracidade do filho, até o que lhe não pertencia apalavrava de boca.
Foi com alívio que o enterrou em Nossa Senhora da Fresta e suspirou:
- Foi milagre de Nosso Senhor ele ter ido primeiro do que eu, se assim não fosse, os meus netos não herdavam nada.
O nome José Paulo, esse nunca mais ninguém o pôde herdar.










Monday, November 03, 2014

Aguarela de Gustavo de Vasconcelos(Lisboa, 1903- Lourenço Marques, 1964)

O meu avô Gustavo de Vasconcelos pintava muito melhor do que o anonimato da sua obra faz supor. Após ter pintado desmedidamente a mulher de um arquitecto, as contingências da vida levaram-no já no final, a Moçambique, aonde se sensibilizou com a languidez das mulheres africanas. Dele regressou apenas um malão da Companhia Nacional de Navegação com os seus objectos pessoais e algumas telas, entre elas esta, que a minha avó, mais apreciadora de retratos de bispos e naturezas mortas, encafuou para um corredor esconso e mal iluminado.Passei a minha infância a perguntar-lhe o que era isto, e ela sempre a responder-me tratar-se de um tronco de oliveira. Até ao dia em que comecei a ver aqui outras coisas, bem, enfim, passei à idade adulta.

Sunday, September 01, 2013


Uma parte do mundo está ali, à vista, no poial de uma taberna. Há sempre alguém para me mostrar uma evidência qualquer:
- A cadela é mais branda do que o cão!
Fico sempre surpreso, é que mesmo que eu me quisesse desviar, colho sempre uma frase à espreita para ser escrita. 

Só uma vez a vi e foi de esgalheireta.

Era mulher grande, comprida mesmo, e muito loura. Nesse dia, ela apareceu aí num carro sem capota que andou aí para trás e para diante, a dar fé de quem estava por cá.
O senhor professor, as mais das vezes, deveria ir esperá-la à estação aonde se apearia do comboio, vinda de Lisboa, escondida do marido, parece que era doutor, arquitecto ou lá o que fosse. O senhor professor logo a agasalhava dentro de casa e com certeza que não estariam lá fechados a jogar às cartas, o certo é que não se deixavam ver. Eu trabalhava lá no monte mais o Barranho e nem sempre tínhamos serviço destinado. Naquela manhã, era Maio, ainda cedo para meter a foice na seara de aveia, bati à porta, bradei pelo homem, a ver o que iriamos fazer. Apareceu descomposto, em calções, à porta, cabelos no ar como se houvera visto um bicho e embatucou diante de mim:
- Que hás de fazer João? Olha, vai podar a figueira grande…
Estava visto que ela lá estava. Lá largámos a rua do monte com o machado e o serrote, escarapantados, para a outra ponta da quinta, donde nem o monte se avistava, nunca na vida tínhamos visto podar figueiras, ainda menos em Maio, com os figos lampos a tombarem para o chão, espéguinhando a seara, que tudo queria menos o reboliço que lá fomos fazer, a derrubar  pernadas, enquanto o senhor professor se espreguiçava mais a amiga no seu sossego que se imagina desinquieto.
Já o Barranho, muito amigo de conversas, teve assunto de paródia na hora de enregar nos copos, à taberna da Parreirinha, ali aos Leões. Nunca ninguém vira pisar um aveal para podar uma figueira, mas o homem manda, o homem é que sabe.

 

Moravam os dois sozinhos, em casa aonde nenhuma mulher entrou, depois que saiu a santa mãe no esquife. Cozinhavam e faziam lume no chão terroso da casa, dormia cada um em seu catre, mas não no quarto, que ainda tinha o palhuço do tempo em que o pai lá arrecadava o burro, à falta de arramada ou outros cómodos aonde agasalhar o animal.
Xico dava ares a ser mais esperto, enquanto Zé tendia a ser um bocadinho parvo. Não podiam os irmãos ser mais diferentes, Xico já em novo tinha boa figura, o que lhe valeu os encantos de lavradora, lá para os lados de Selmes, amores tão assanhados como rápido abreviados, quando o Vargas soube andar a filha enrabichada por um borrabotas, resolveu a coisa como manda a tradição dos que já cá estavam, pregando brava sova de correadas na moça e deixando-a trancada em casa até lhe passarem as fantasias românticas. Quanto a ele, Xico, deixou-se convencer com o calhafuz do lavrador apontado ao peito e carregado a zagalotes.
Não voltou Xico a experimentar na vida, aquela palpitação de âmago que revira as entranhas dos amantes e tempera a existência.
Já Zé não foi contemplado com o dom da visibilidade aos olhos das mulheres. Era pequenino, farrusco, de cabelo crespo como uma palmeira das que nascem bravas no barranco. Ainda mal lhe assomava o buço sobre a boca e já tomava o caminho da cidade aonde frequentava a casa das madames, gastando o soldo da jornada e ganhando lugar na imortalidade, pela assídua fiabilidade do seu vício. Sabia sempre escolher a maior que lá houvesse, sempre teria mais corpo amável, e como desde novo era garganeiro, nela se encarrapitava e fazia render a noite, horas adiante sem desfalecimento, em trabalhos esforçados, que se tornaram lendários na memória daqueles lugares. Não era homem de meias doses, nem meias horas, e só assim alguma mulher pôde reparar na sua existência.
 Xico ia à pesca para o moinho de pernas e de lá vinha algum peixe bem como qualquer coelhito que se tivesse posto a jeito. No caminho do moinho, aonde semeava abóboras na beira da ribeira, Xico ia espalhando cigarros pelo caminho para de regresso os ir descobrindo debaixo das pedras e fumar tais revelações. Os trocos viviam sempre contados. À tardinha depois da sesta, desciam à venda do Raposo a marcar encontro com uns tintos. A taberna, cheia nesses tempos áureos, parava para os ouvir. Xico tinha lábia para o seu número preferido:
- Zéie!
- Hum…- torna o outro
- Sabes contar?- bem sabia ele
- Sêie!
 Abrindo a mão cheia de 2 moedas de tostão:
- Quantas moedas  faltam aqui para um maçinho de tabaco?
E lá aparecia o resto.
Siga o vinho e vá de esfumaçar até ser escuro.

Nos olhos marítimos de Jerónimo, muitas princesas e rainhas o foram por um dia, e neles se afogaram sem contemplações de alma. Jerónimo, de bastas melenas alouradas do sol, desafia os dias ao acaso.
A sua aventura começou na baixa nazarena, criado aos baldões em casa de pai abrutalhado pela bebida, a ir ao mar, ainda criança nas traineiras, à sardinha ao largo das berlengas, o miúdo foi crescendo com medo e porradas, até ganhar o gosto de os desafiar. Um dia, ainda menor mas já com estampa de rapazão, virou as costas à casa aonde imperava a demência alcoólica do pai e fugiu para bem longe, para outro porto de pesca em busca de uma traineira que o levasse para a vida, se possível algures, por bandas do sol posto.
Não arranjou barco, antes companha de um desembarcadiço que vivia de fazer pão e comer laranjas bravas num monte alentejano sem água, luz, eira nem beira. Ente os sobreiros da Boavista, estava plantado o modestíssimo monte de paredes caiadas, aonde uma micro coletividade masculina desenrascava a vida sem outras preocupações que comer, viver o sol e o mar próximo, cozer pão duro e secar fruta. Jerónimo atraía público feminino suficiente para a animação da vizinhança, idosa e circunscrita aos seus metros quadrados de mundo. Elas apareciam, umas louras, outras morenas, grandes ou pequenas, a pé, de bicicleta ou trotineta, até de automóvel, vejam lá o que eram as ânsias.
Entrou na mitologia daqueles sítios, a aura de bom bandido de Jerónimo, esparramado na praia do Pessegueiro, nuzinho como Adão no paraíso, cuidando do tisnar de suas curvas que muito proveito rendiam nos favores das mulheres. Estava naquele desfrute de paraíso quando ouviu chegar a guardilha ofendida com tal ousadia, homem nu na praia a pedir ordem de prisão, em defesa da reputação nacional, pátria de bons e sãos costumes. Jerónimo não se ficou quieto, chamou-os a si, jogou-se ao mar e nadou, nadou até à ilha do Pessegueiro, donde o puderam avistar fazendo gaifonas à autoridade e dizendo o que bem lhe apetecia.
No dia seguinte, já ele lá estava outra vez, deitado, nuínho, sonhando com os seus dias de vida propícia ao prazer, sempre com aqueles olhos, topázios de infinitos encantos para princesas encantadas, fossem elas mouras ou frauleines.

José Paulo do Nascimento era um galo doido, assim dito por seu neto José, simplesmente José, sem Paulo, ao arrepio da tradição familiar que mandava por o Paulo a todos os varões. Seu neto estava já ao abrigo da maldição da família, já tinha tido um irmão José Paulo, morto criança em Africa com as sezões, e ainda assim insistiu e foi pai de um nado morto de nome igual ao do maldito.
 O maldito tinha mesmo sido um doidivanas, que arruinou o nome da família para toda a eternidade sem se dar conta de tal, no dia em que a cigana Lucinda, mulher graúda e de apetitosa que estacionou na avenida chegada num circo, achando-se despeitada, sensualidade mexeu os lábios carnudos e em seu fogo rogou:
- Maldito sejas até ao fim dos dias e que o teu nome não volte a vingar tal como o sal não deixa vingar a verde erva.
Não nasceu ele para trabalhar, sendo filho de uma grande fortuna de Trancoso, o boticário José Paulo da Silva, um zé ninguém nascido em Souto Maior e que emergiu com o liberalismo  a poder de trabalho, poupança e boas companhias politicas, deixou o pai em herança uma fortuna colossal em numerário e propriedades à qual os herdeiros António Augusto e José Paulo do Nascimento deram diferentes fins.
 António era um maçónico filantropo, acreditava nas virtudes da instrução, força libertadora do ser humano oprimido pela ignorância, à mercê da igreja e dos poderes. Era republicano, laico, socialista, e como tal aplicou a sua herança no ensino voluntário, gratuito e generalizado de todos os que se apresentassem à sua escola.
Já José Paulo era um epicurista, a política não lhe interessava, queria era desfrutar a vida, viajar a Paris, cidade das luzes, ir à ópera, tocar piano, namorar quantas mulheres houvesse, amesendar-se em bons restaurantes, era esta a sua vida linda. Muito penava sua mulher Leonor que não chegou a velha de tantas ausências e arrelias. José Paulo do Nascimento, aplicou-se em converter metodicamente uma grande fortuna numa exígua fortuna. Finalmente já viúvo, ainda arranjou mais uns quantos filhos, a juntar aos três do matrimónio, os Caçapos, filhos da Rita Caçapa, criada de servir de sua santa senhora já falecida. Quem não gostou da ideia foi sua mãe, que teimou em chegar aos cem anos, mantendo em si a salvo uma parte da herança do pai boticário e vendo ser delapidada a outra parte pela voracidade do filho. Foi com alívio que o enterrou em Nossa Senhora da Fresta e suspirou:
- Foi milagre de Nosso Senhor ele ter ido primeiro do que eu, se assim não fosse os meus netos não herdavam nada.
O nome José Paulo, esse nunca mais ninguém o pôde herdar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Januários, Josués e outros que tais, moços taludos e guerriões, tão depressa amigos, como de mal uns com os outros.
Nesse tempo a aldeia tinha muita gente e sendo muitos, bastante guerreavam pelas tabernas e seus poiais. Nunca gostei de barulhos, sempre fui pequenote e eles corpanzudos, havia sempre algum já bebido que começava a implicação, espenicando aqui ou ali, a ver por onde pegava. Eles eram abrutados, se um falava alto, o outro tinha que soar mais ainda, sempre em crescimento, até que por vezes saltava uma punhada direita às ventas de algum, podendo até sobrar para alguém que não estivesse no barulho. Eu fazia que não era nada, a ver se a moenga girava para outro qualquer com mais posses para lhes dar troco.
No dia seguinte, voltavam a falar-se e parecia que não fora nada. No que eles bem se entendiam, era a receber os das outras aldeias à pedrada quando cá havia baile, e vinham de fora fazer olhinhos de carneiro mal morto às nossas, as cá do monte. Nestas e noutras guerreias, eu nunca me tirei do lado de fora. Rapazes, já se sabe…

Brisa de levante, as cigarras pulam aos ouvidos.
Jerónimo vem do cerro gordo com os coelhos pendurados, direito á venda do Raposo, aonde chegará o senhor Domingos a juntar a caça que todos para lá carregam, e que fará chegar à mesa dos senhores, lá na cidade distante. O irmão fugiu no ano passado com a mulher do Gustavo, nunca mais apareceram, foram sem deixar rasto, no estrangeiro ganham a vidinha deles longe dos enredos que cá ficaram.
Jerónimo, o irmão com natureza para se deixar ficar, sem atrevimento sequer para arranjar mulher, destinado pelo acaso e inércia a ficar em casa, dado à mãe, aos seus comeres. Ela trata das roupas, põe comida na mesa, e até lhe faz meia de calçar. A sua casa é na sociedade com os demais, igualmente moços solteiros de todas as idades, uns sem ninguém, outros com mãe ou irmã a bradar-lhes para jantar à hora aprazada. É com os outros que há paródia, conversas correntes, talentos no jogo da carta, caracóis no pires e o Benfica para sofrer.
Jerónimo é novo e sofre do coração, um dia passou ali uma professora e o rasto do seu perfume indicava um caminho direto à felicidade que Jerónimo não alcançou por falta de palavras. Ficou a poeira da carreira que a levou no final do ano para o desconhecido do seu futuro de moça casadoira, peito saltitante no vago decote, lá se foi empoleirada no garbo dos seus saltos, para bem longe do olhar vergonhoso de Jerónimo, que quedo ficou na paisagem, sem palavras achadas, impregnado de cheiro a mato e solidão.

 

Castro Marim, 1 de Setembro de 2013