Monday, November 03, 2014

Aguarela de Gustavo de Vasconcelos(Lisboa, 1903- Lourenço Marques, 1964)

O meu avô Gustavo de Vasconcelos pintava muito melhor do que o anonimato da sua obra faz supor. Após ter pintado desmedidamente a mulher de um arquitecto, as contingências da vida levaram-no já no final, a Moçambique, aonde se sensibilizou com a languidez das mulheres africanas. Dele regressou apenas um malão da Companhia Nacional de Navegação com os seus objectos pessoais e algumas telas, entre elas esta, que a minha avó, mais apreciadora de retratos de bispos e naturezas mortas, encafuou para um corredor esconso e mal iluminado.Passei a minha infância a perguntar-lhe o que era isto, e ela sempre a responder-me tratar-se de um tronco de oliveira. Até ao dia em que comecei a ver aqui outras coisas, bem, enfim, passei à idade adulta.

Sunday, September 01, 2013


Uma parte do mundo está ali, à vista, no poial de uma taberna. Há sempre alguém para me mostrar uma evidência qualquer:
- A cadela é mais branda do que o cão!
Fico sempre surpreso, é que mesmo que eu me quisesse desviar, colho sempre uma frase à espreita para ser escrita. 

Só uma vez a vi e foi de esgalheireta.

Era mulher grande, comprida mesmo, e muito loura. Nesse dia, ela apareceu aí num carro sem capota que andou aí para trás e para diante, a dar fé de quem estava por cá.
O senhor professor, as mais das vezes, deveria ir esperá-la à estação aonde se apearia do comboio, vinda de Lisboa, escondida do marido, parece que era doutor, arquitecto ou lá o que fosse. O senhor professor logo a agasalhava dentro de casa e com certeza que não estariam lá fechados a jogar às cartas, o certo é que não se deixavam ver. Eu trabalhava lá no monte mais o Barranho e nem sempre tínhamos serviço destinado. Naquela manhã, era Maio, ainda cedo para meter a foice na seara de aveia, bati à porta, bradei pelo homem, a ver o que iriamos fazer. Apareceu descomposto, em calções, à porta, cabelos no ar como se houvera visto um bicho e embatucou diante de mim:
- Que hás de fazer João? Olha, vai podar a figueira grande…
Estava visto que ela lá estava. Lá largámos a rua do monte com o machado e o serrote, escarapantados, para a outra ponta da quinta, donde nem o monte se avistava, nunca na vida tínhamos visto podar figueiras, ainda menos em Maio, com os figos lampos a tombarem para o chão, espéguinhando a seara, que tudo queria menos o reboliço que lá fomos fazer, a derrubar  pernadas, enquanto o senhor professor se espreguiçava mais a amiga no seu sossego que se imagina desinquieto.
Já o Barranho, muito amigo de conversas, teve assunto de paródia na hora de enregar nos copos, à taberna da Parreirinha, ali aos Leões. Nunca ninguém vira pisar um aveal para podar uma figueira, mas o homem manda, o homem é que sabe.

 

Moravam os dois sozinhos, em casa aonde nenhuma mulher entrou, depois que saiu a santa mãe no esquife. Cozinhavam e faziam lume no chão terroso da casa, dormia cada um em seu catre, mas não no quarto, que ainda tinha o palhuço do tempo em que o pai lá arrecadava o burro, à falta de arramada ou outros cómodos aonde agasalhar o animal.
Xico dava ares a ser mais esperto, enquanto Zé tendia a ser um bocadinho parvo. Não podiam os irmãos ser mais diferentes, Xico já em novo tinha boa figura, o que lhe valeu os encantos de lavradora, lá para os lados de Selmes, amores tão assanhados como rápido abreviados, quando o Vargas soube andar a filha enrabichada por um borrabotas, resolveu a coisa como manda a tradição dos que já cá estavam, pregando brava sova de correadas na moça e deixando-a trancada em casa até lhe passarem as fantasias românticas. Quanto a ele, Xico, deixou-se convencer com o calhafuz do lavrador apontado ao peito e carregado a zagalotes.
Não voltou Xico a experimentar na vida, aquela palpitação de âmago que revira as entranhas dos amantes e tempera a existência.
Já Zé não foi contemplado com o dom da visibilidade aos olhos das mulheres. Era pequenino, farrusco, de cabelo crespo como uma palmeira das que nascem bravas no barranco. Ainda mal lhe assomava o buço sobre a boca e já tomava o caminho da cidade aonde frequentava a casa das madames, gastando o soldo da jornada e ganhando lugar na imortalidade, pela assídua fiabilidade do seu vício. Sabia sempre escolher a maior que lá houvesse, sempre teria mais corpo amável, e como desde novo era garganeiro, nela se encarrapitava e fazia render a noite, horas adiante sem desfalecimento, em trabalhos esforçados, que se tornaram lendários na memória daqueles lugares. Não era homem de meias doses, nem meias horas, e só assim alguma mulher pôde reparar na sua existência.
 Xico ia à pesca para o moinho de pernas e de lá vinha algum peixe bem como qualquer coelhito que se tivesse posto a jeito. No caminho do moinho, aonde semeava abóboras na beira da ribeira, Xico ia espalhando cigarros pelo caminho para de regresso os ir descobrindo debaixo das pedras e fumar tais revelações. Os trocos viviam sempre contados. À tardinha depois da sesta, desciam à venda do Raposo a marcar encontro com uns tintos. A taberna, cheia nesses tempos áureos, parava para os ouvir. Xico tinha lábia para o seu número preferido:
- Zéie!
- Hum…- torna o outro
- Sabes contar?- bem sabia ele
- Sêie!
 Abrindo a mão cheia de 2 moedas de tostão:
- Quantas moedas  faltam aqui para um maçinho de tabaco?
E lá aparecia o resto.
Siga o vinho e vá de esfumaçar até ser escuro.

Nos olhos marítimos de Jerónimo, muitas princesas e rainhas o foram por um dia, e neles se afogaram sem contemplações de alma. Jerónimo, de bastas melenas alouradas do sol, desafia os dias ao acaso.
A sua aventura começou na baixa nazarena, criado aos baldões em casa de pai abrutalhado pela bebida, a ir ao mar, ainda criança nas traineiras, à sardinha ao largo das berlengas, o miúdo foi crescendo com medo e porradas, até ganhar o gosto de os desafiar. Um dia, ainda menor mas já com estampa de rapazão, virou as costas à casa aonde imperava a demência alcoólica do pai e fugiu para bem longe, para outro porto de pesca em busca de uma traineira que o levasse para a vida, se possível algures, por bandas do sol posto.
Não arranjou barco, antes companha de um desembarcadiço que vivia de fazer pão e comer laranjas bravas num monte alentejano sem água, luz, eira nem beira. Ente os sobreiros da Boavista, estava plantado o modestíssimo monte de paredes caiadas, aonde uma micro coletividade masculina desenrascava a vida sem outras preocupações que comer, viver o sol e o mar próximo, cozer pão duro e secar fruta. Jerónimo atraía público feminino suficiente para a animação da vizinhança, idosa e circunscrita aos seus metros quadrados de mundo. Elas apareciam, umas louras, outras morenas, grandes ou pequenas, a pé, de bicicleta ou trotineta, até de automóvel, vejam lá o que eram as ânsias.
Entrou na mitologia daqueles sítios, a aura de bom bandido de Jerónimo, esparramado na praia do Pessegueiro, nuzinho como Adão no paraíso, cuidando do tisnar de suas curvas que muito proveito rendiam nos favores das mulheres. Estava naquele desfrute de paraíso quando ouviu chegar a guardilha ofendida com tal ousadia, homem nu na praia a pedir ordem de prisão, em defesa da reputação nacional, pátria de bons e sãos costumes. Jerónimo não se ficou quieto, chamou-os a si, jogou-se ao mar e nadou, nadou até à ilha do Pessegueiro, donde o puderam avistar fazendo gaifonas à autoridade e dizendo o que bem lhe apetecia.
No dia seguinte, já ele lá estava outra vez, deitado, nuínho, sonhando com os seus dias de vida propícia ao prazer, sempre com aqueles olhos, topázios de infinitos encantos para princesas encantadas, fossem elas mouras ou frauleines.

José Paulo do Nascimento era um galo doido, assim dito por seu neto José, simplesmente José, sem Paulo, ao arrepio da tradição familiar que mandava por o Paulo a todos os varões. Seu neto estava já ao abrigo da maldição da família, já tinha tido um irmão José Paulo, morto criança em Africa com as sezões, e ainda assim insistiu e foi pai de um nado morto de nome igual ao do maldito.
 O maldito tinha mesmo sido um doidivanas, que arruinou o nome da família para toda a eternidade sem se dar conta de tal, no dia em que a cigana Lucinda, mulher graúda e de apetitosa que estacionou na avenida chegada num circo, achando-se despeitada, sensualidade mexeu os lábios carnudos e em seu fogo rogou:
- Maldito sejas até ao fim dos dias e que o teu nome não volte a vingar tal como o sal não deixa vingar a verde erva.
Não nasceu ele para trabalhar, sendo filho de uma grande fortuna de Trancoso, o boticário José Paulo da Silva, um zé ninguém nascido em Souto Maior e que emergiu com o liberalismo  a poder de trabalho, poupança e boas companhias politicas, deixou o pai em herança uma fortuna colossal em numerário e propriedades à qual os herdeiros António Augusto e José Paulo do Nascimento deram diferentes fins.
 António era um maçónico filantropo, acreditava nas virtudes da instrução, força libertadora do ser humano oprimido pela ignorância, à mercê da igreja e dos poderes. Era republicano, laico, socialista, e como tal aplicou a sua herança no ensino voluntário, gratuito e generalizado de todos os que se apresentassem à sua escola.
Já José Paulo era um epicurista, a política não lhe interessava, queria era desfrutar a vida, viajar a Paris, cidade das luzes, ir à ópera, tocar piano, namorar quantas mulheres houvesse, amesendar-se em bons restaurantes, era esta a sua vida linda. Muito penava sua mulher Leonor que não chegou a velha de tantas ausências e arrelias. José Paulo do Nascimento, aplicou-se em converter metodicamente uma grande fortuna numa exígua fortuna. Finalmente já viúvo, ainda arranjou mais uns quantos filhos, a juntar aos três do matrimónio, os Caçapos, filhos da Rita Caçapa, criada de servir de sua santa senhora já falecida. Quem não gostou da ideia foi sua mãe, que teimou em chegar aos cem anos, mantendo em si a salvo uma parte da herança do pai boticário e vendo ser delapidada a outra parte pela voracidade do filho. Foi com alívio que o enterrou em Nossa Senhora da Fresta e suspirou:
- Foi milagre de Nosso Senhor ele ter ido primeiro do que eu, se assim não fosse os meus netos não herdavam nada.
O nome José Paulo, esse nunca mais ninguém o pôde herdar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Januários, Josués e outros que tais, moços taludos e guerriões, tão depressa amigos, como de mal uns com os outros.
Nesse tempo a aldeia tinha muita gente e sendo muitos, bastante guerreavam pelas tabernas e seus poiais. Nunca gostei de barulhos, sempre fui pequenote e eles corpanzudos, havia sempre algum já bebido que começava a implicação, espenicando aqui ou ali, a ver por onde pegava. Eles eram abrutados, se um falava alto, o outro tinha que soar mais ainda, sempre em crescimento, até que por vezes saltava uma punhada direita às ventas de algum, podendo até sobrar para alguém que não estivesse no barulho. Eu fazia que não era nada, a ver se a moenga girava para outro qualquer com mais posses para lhes dar troco.
No dia seguinte, voltavam a falar-se e parecia que não fora nada. No que eles bem se entendiam, era a receber os das outras aldeias à pedrada quando cá havia baile, e vinham de fora fazer olhinhos de carneiro mal morto às nossas, as cá do monte. Nestas e noutras guerreias, eu nunca me tirei do lado de fora. Rapazes, já se sabe…

Brisa de levante, as cigarras pulam aos ouvidos.
Jerónimo vem do cerro gordo com os coelhos pendurados, direito á venda do Raposo, aonde chegará o senhor Domingos a juntar a caça que todos para lá carregam, e que fará chegar à mesa dos senhores, lá na cidade distante. O irmão fugiu no ano passado com a mulher do Gustavo, nunca mais apareceram, foram sem deixar rasto, no estrangeiro ganham a vidinha deles longe dos enredos que cá ficaram.
Jerónimo, o irmão com natureza para se deixar ficar, sem atrevimento sequer para arranjar mulher, destinado pelo acaso e inércia a ficar em casa, dado à mãe, aos seus comeres. Ela trata das roupas, põe comida na mesa, e até lhe faz meia de calçar. A sua casa é na sociedade com os demais, igualmente moços solteiros de todas as idades, uns sem ninguém, outros com mãe ou irmã a bradar-lhes para jantar à hora aprazada. É com os outros que há paródia, conversas correntes, talentos no jogo da carta, caracóis no pires e o Benfica para sofrer.
Jerónimo é novo e sofre do coração, um dia passou ali uma professora e o rasto do seu perfume indicava um caminho direto à felicidade que Jerónimo não alcançou por falta de palavras. Ficou a poeira da carreira que a levou no final do ano para o desconhecido do seu futuro de moça casadoira, peito saltitante no vago decote, lá se foi empoleirada no garbo dos seus saltos, para bem longe do olhar vergonhoso de Jerónimo, que quedo ficou na paisagem, sem palavras achadas, impregnado de cheiro a mato e solidão.

 

Castro Marim, 1 de Setembro de 2013

Wednesday, July 24, 2013


Vicente e Virginia desfrutavam da sua gloriosa nudez, enquanto colhiam laranjas em sua propriedade, indiferentes ao trolha que lhes fazia os acabamentos no telhado da casa, e muito se distraia com aquela ausência de vergonha, em prejuízo obvio do andamento dos trabalhos, digamos que seriam não lavradores, mas tão só, recolectores dos prazeres da vida terreal, da carnal não sabemos, apenas supomos, como o trolha.
Ela chegou no seu carro diretamente dos frescos da Flandres, em busca do sol e de pessoas afins. Vinha impregnada de certezas sobre a naturalidade saudável do crudivorismo vegan, sedenta de sol e mar que lhe tingissem um pouco as maçãs do rosto e trazia vastos confortos na conta bancária de rica herdeira.
Ele sobrevivia de fazer pão e de negócios de ocasião, melões de Odivelas, cerejas do fundão, iguarias que vendia pelas praias, enquanto discorria sobre os benefícios da alimentação natural, do fabrico caseiro da pasta de dentes com argila, das delicias de dormir na rua nas noites de julho, ter um pomar que lhe acudisse á velhice de frugívoro, a ténue esperança no aparecimento de alguma improvável companheira.
 Encontraram-se à esquina de um enorme sobreiro  a cuja sombra Vicente era devotado, ela tinha vindo procurar uma ervanária naquele vasto deserto arborizado e lá se demorou em conversas que depressa as evidências do coração conduziram à sua alma gémea. O amor estava ali deitado em slipes castanhos, na esquina do sobreiro, esperando por ela.

 

 

                               Se bruto é quem assim come, mais ainda o é, quem lho dá.

Assim pensa Filomena, vendo o senhor padre Antunes acabando de se bater com um peru assado, rematando um opíparo almoço de seis pratos variados e outras tantas sobremesas. Caso não saibam, esta senhoria com a alcunha chocarreira de padre boi, era conhecido pelas suas abundancias de corpanzil, ser homem de muito alimento em comida, bebida e paroquianas incautas, tanto que eram inúmeros os filhos de pai incógnito naquela paróquia, ganhando muitos deles ares a sua reverência.
Sua majestade El rei, veio a Coimbra passear-se mais a família e a corte, e de todos os notáveis regionais ao almoço, não poderia faltar sua reverência, o senhor padre Antunes, de quem se aguardavam façanhas capazes de ombrear com sua alteza, nas reconhecidas capacidades de ingestão que a ambos eram reconhecidas. O nosso prior portou-se com galhardia mas distinção, de tudo comeu, dos seis pratos mais as sobremesas, num repasto que o sentou à mesa umas boas cinco horas. No final, já todos estavam consolados e bem regados de bom vinho de Colares, melhor ou pior esparramados em fauteilles de veludo, fumiscando cigarrilhas enquanto o nosso santo prior arrastou o corpanzil trôpego de comida e sífilis, até à copa, indagando prazenteiro do que lá haviam posto a recato. Filomena, criada de servir no cabido da Sé, já lhe conhecia as manhas e delas se mantinha afastada, seja por manter prudente distancia, ou por ser franzina e escassa de carnes, pouco ao gosto dos apetites paroquiais, a verdade é que sempre foi escapando à voracidade do senhor prior.
O padre boi instalou-se no banco corrido, à mesa da copa, e naquele recato chamou a si o peru assado, recheado com castanhas e azeitonas. Com ele se entreteve mais um longuíssimo bom bocado e longe da vista dos restantes convivas. No final, parecia finalmente consolado:
- O passarito até que não estava mau!

As abelhas são uma névoa que passa na vida da gente.
Tudo principiou na curiosidade infantil por estranhos objectos enleados em teias de tempo e aranha. Ele eram colmeias desbotadas, um centrifugador perro e chiante, quadros meio despregados, uma garrafa de hidromel já com formigas dentro e esquecida num armário velho. Heranças do meu avô, um neo- rural, antes do tempo em que isso passou a estar tipificado por académicos, desses que buscam a classificação de tudo. Gustavo era um homem da cidade surpreendido e tocado pelo grande espaço quase africano do sul, veio fazer agricultura munido de livros e tratados positivistas, autenticas odes triunfais da lavoura. Lá vinham os manuais de apicultura, moderna à época, que fizeram dele um pioneiro do mobilismo e com essa sede de modernidade vieram das primeiras colmeias moveis que se viram no Alentejo. O entusiasmo não resistiu a uma manhã de cresta que descambou num pandemónio de picadelas, com as abelhas em fúria a matarem perus e galinhas e a ferrarem até em árvores. Enfadou-se com tanta fúria e encostou as abelhas no esquecimento. Trinta anos depois, um neto iria conhecer a cigueira das abelhas, provar do seu veneno e procurar a alma das flores, o sentido alquímico que existe em cada frasco de mel.

Friday, July 12, 2013

Restolho de Meciares


Já o trigo se debulhou em Meciares, lugar ermo, certamente provido da mercê de bons ares. Os restolhos entregues ao gado, o badalar do rebanho corta a cantoria das cotovias, pássaros pardos, vizinhos das palhas.
- Não mora cá ninguém, já fomos muitos, alguns trinta. Eu resisti por cá, apanhava umas túberas, pescava, tinha artes de armar laços, sempre me ia governando com o que aí havia, tanto, que um dia quando mudou a moeda, enchi uma saca grande, dessas do adubo, cheínha de notas que lá havia para trocar. Cheguei ao alcatrão e fiz alto ao primeiro carro que passou para a vila, levando a saca aos pés. Na Caixa, o gerente fechou a porta para ficarem à vontade contando o dinheiro. Quando de lá saí, levava menos quantidade de notas, estes euros não têm jeito nenhum. Vou para velho, estou um merdas, mas mesmo sendo um penante que nem motorizada tem, consegui arrebanhar umas massas.
Não sei donde chega este falar, talvez de dentro da taipa das paredes, estamos na hora da calma, nada bule por aqui, é apenas um lugar de memórias a caminho da ruína. E o que ficou é restolho.

Tuesday, July 02, 2013

Longos dias de Setembro



Longos dias tinha Setembro. Ainda hoje tenho ânsias de ver aparecer os meus, num carro a crescer para cá do horizonte. O meu pai chegava ao final da semana e era festa. Com ele vinha a luz, era ele quem sabia acender o pétrómax, a libertar-nos da penumbra dos candeeiros de petróleo. Em Setembro, a minha avó Isabel, de olhos de azeitona verde e espirito dócil, assentava arraiais na quinta, em mês vindimo de uvas, figos e rendas do senhor Adelino. Entretinha-se a regar de regador, todos os finais de tarde, uma alameda de lírios roxos que nunca se viam floridos por falta de comparência à Primavera. Eu percorria a quinta pedalando e sonhando com pássaros desconhecidos, pelos intervalos das sestas obrigatórias, à tardinha ia com a Noémia, criada de servir desde sempre e que me viu nascer e crescer, buscar o leite à cocheira do senhor Adelino, aonde três vacas tourinas eram ordenhadas para um balde de folha. Ficava pasmado a ver as bolinhas amarelas à superfície do leite. O meu pai chegava de Lisboa quase à noite, trazia a luz mas apreciava a penumbra, criado entre granitos nas serras beirãs, do que gostava no verão alentejano era das noites tropicais. Sentávamo-nos quietos a deixar falar os bichos noturnos, grilos, mochos e afins ou esticávamo-nos na laje do casito, ainda morna da canícula, cada qual apenas falando com os astros, o luar e suas sombras, o meu pai a remoer um verso, por vezes se dizia qualquer coisa bem medida. Bastava-me aquela presença serena que chegava sem imposições nem normas. Trazia a luz e encurtava os dias, fazia deles setembros.
 

Custosa de dar mão


- Se já em nova era ela custosa de dar mão, agora, claro, leva o tempo a sacudir-me.
À sombra da oliveira, naquela tarde de Junho, Inácio mexia na barbinha aparada enquanto bebericava uma cerveja e arranjava explicações para a vida. Não tinha muito de que se queixar, um emprego no estado bem pago, um carro razoável, a filha já constituída doutora, sobrava-lhe o tempo para tocar clarinete na filarmónica e ainda para possuir umas abelhas lá para os lados de São Sebastião. Mas, Ó vida! Não chegava.
- Isto das abelhas é só uma entretenga, uma boa razão para não parar em casa. Apanho ali cem ou duzentos quilos de mel, vou vender aquilo em frasquinhos, um aqui, outro ali, dinheiro de sardinhas! Quando dou noticia aquilo não é nada.
Inácio levou a mine à boca e de um trago ganhou fôlego para o devir.
- Sabes a bem dizer o que lhe faço?- Os olhinhos verdes, miudinhos, fizeram-se-lhe bailarinos.
- Atiro as moedas para uma lata, faço ali um migalheiro e quando lá tiver algum que se veja, sacudo de lá o dinheiro e vou passear a um sitio escuro, longe daqui, lugar aonde me não conhecem. Tem lá mulheres de todas as cores, feitios e medidas.
- Aquilo lá em casa já prescreveu, agora, nem que fizesse um requerimento em papel selado. Ela foi sempre custosa de dar mão.

Cigana


Amo-te cigana.
Não tens nome, cigana, e eu sou apenas um “senhor” atravessado por uma troca de olhos, uns figos lampos cheios de intenção e gula. Não sei em que dia, sonho ou primavera.Talvez numa manhã de Abril  na máxima floração das estevas, uma caravana de ciganos e suas carroças e bestas pediam boleia no fundo de um barranco fundo, os animais cansados não queriam subir. Em minutos, colchões, panelas, roupas e crianças tudo se mudou para o meu camião e em menos tempo ainda subimos a ladeira. Tu acompanhas-me na cabine enquanto conduzo, falaste-me como para um igual mas com altivez de tourada, gosto do teu odor a lenhas e mato, do manear das mãos, dedos longos acobreados, cor de xisto, e a cintura, Deus, foi tirada a uma estátua.Tantos dias lá passei depois na esperança de te ver aparecer numa vereda, ser chamado a contigo desaparecer no mato.

Os amigos


Uma coisa eu sei, até dois cães que se cruzem numa azinhaga dizem alguma coisa um ao outro, encostam os focinhos, abanam o rabo, trocam salamaleques no falar deles. Gente que se encontre aí por uma vereda, ou mesmo em rua de aldeia, sem nada dizerem, não são gente, nem sequer condição têm de bichos que, como sabemos já, se cumprimentam.

Mas falar a quem se nos apresenta no caminho é uma coisa, amizade vem a ser outra. O meu compadre António é um chico fininho de falinhas mansas. Recebi-o sempre bem, nunca faltou nada na minha mesa quando ele chegava com a boca carregada de parvoeiras, conversas de garganeiro, veja-se que havia sempre fartura de cervejas, de pão, de carne, comida a rodos e portas escancaradas, mas ainda assim, pedinchava sempre por mais, jogava olhos de cobiça e mãos também, a tudo quanto alcançava. Tanto fez que tive que o botar da porta para fora, nalgas pelo chão à poeira da rua. Acabaram-se de vez as conversetas.

Já com o Comendinha, que Deus tem, desde a primeira hora me entendi, estávamos sempre de acordo fosse na caça, fosse a apanhar azeitonas, a acender o forno para os bolos da festa, a jogar à carta, ou a cantar umas saias. Eramos camaradas para a paródia ou para o trabalho, nunca um ficou devendo nada ao outro. E assim é que é bonito! E já agora, tu não sabes, que és novo, mas eu vou dizer, o teu maior amigo é o teu pai, a seguir sou eu.

Friday, February 15, 2013

A mulher dorme no quarto, a mula dorme em pé na cabana, toda a noite bate com os cascos no chão e não me deixa descansar. Passo as noites a esgravolhar na vida. O tempo está-se a acabar, talvez por isso durmo menos e sobra muita vida ao que passou.
Lembro as madrugadas em que ia a caminho da cidade, carroça carregada de hortaliças para o mercado, a passo manso de mula, alumiados por uma lanterna. Os rapazes ainda estavam em casa, quando casaram acabou esta volta, não poderia abalar noite escura deixando a mulher sózinha, nunca se sabe se não apareceriam por aí alguns gaiatões, que valendo-se de não haver homem em casa, ainda pensassem em fazer pouco dela.
Lembro a minha filha, menina do pai, de todos foi a que saiu a mim. Muitos trabalhos tive para a casar bem. Para lá de ser bem encarada, pois eu tambem nunca fui feio, tinha uns pernegões que reviravam os olhos da rapaziada. Um dia, ia mais ela à Rua da Lagoa, e passou por nós um magála que chamou:
- Bonéca!
Encarei-o e disse:
- Diga lá outra vez! Não ouvi bem! Vá, diga lá!
O outro baixou os olhos e seguiu à vida dele. Era preciso andar sempre de olhos bem abertos.
O irmão da minha genra, grande tunante que era, sabia a que horas ela se apeava da carreira, vinda da cidade quando ainda andava a estudar, e para lá ia esperá-la e fazer olhos de carneiro mal morto, que era só o que ele sabia fazer na vida. Mal dei notícia, fui lá ter com ele à paragem:
- Some-te daqui! Já me chega bem a tua irmã na familia.
Depois começou a namorar com um furriel que conheceu num baile de carnaval da Casa do Povo. Rapaz de jeito manso, talvez frouxo a mais para o feitio dela, namoraram-se aqui à porta durante três anos, sempre com respeito, com a minha mulher a tomar conta e no final, foi um casamento bonito.
Casar os filhos foi um sossego, sou agora mais brando, mesmo que a pele já esteja encortiçada, a idade amacia-nos. Os grilos cantam lá fora e tudo o resto está calado, já tomei o comprimido, a ver se descanso, a vida custa a sair da cabeça.

Monday, February 11, 2013

Vicente parecia amar os moinhos acima de todas as coisas.

Morava na Cabeça da Cabra, num monte pertença de um moleiro retirado e já desterrado num apartamento em Sines. Ventura de sua graça, da porta de sua casa em Sines, avistava o cerro com vista para o mar aonde estava o seu moinho construído em vida do pai. Tinha por aquele moinho um desvelo ilimitado, fechado a cadeado.

Vicente chegou à sua porta a saltitar na sua camioneta enpoeirada e ostentando o sorriso solar e sorridente que desarmadilhava qualquer não. Buscava um monte para morar, com vista para o mar, forno de lenha para cozer um pão, elixir da eterna saude,e moinho para moer o trigo mais biológico possivel. Ventura, depois de lhe analisar o desalinho e o desatino, lá disse que sim, na condição de nunca a porta do seu moinho ser aberta.

Vicente não peneirava a farinha, era o pão dos homens antigos que ele anunciava pelas praias dos cámónes, o pão mais abrasivo para as entranhas desprevenidas de toda a costa alentejana. A sua casa da Cabeça da Cabra tinha impregnado o cheiro acre da infinita fermentação das farinhas, caldeado com notas odoríferas de frutos, melões, cerejas e maçãs em dilatado repouso. Ia vivendo do pão e pagando as rendas com maior ou menor atraso ao senhorio Ventura, amiúde tratado por companheiro e contemplado com inumeras ofertas de consistentes pães.

Tudo decorreu na melhor das harmonias até ao dia em que Ventura amanheceu abrindo a janela à maresia e engoliu azia pelos olhos, vendo as velas do seu moinho, a todo o pano desfraldadas à brisa oceânica. Não houve "companheiro" para cá nem para lá, nem pães que valessem à continuação do contrato oral de inquilinato. Por muito amor que Vicente dedicasse à utopia da moagem, o amor de Ventura à mesma causa, tinha a consistência da posse que era bem real, como lhe demonstrou, fazendo um chinfrim de insultos e ameaças de fazer e acontecer. A panificação e a vida seguiram o seu curso, noutros ares, sob outra melhor estrela. A casa seguinte já não tinha moinho.