Sunday, September 10, 2006

Lógica do pinhão

Nem de propósito, após o último post surgiu-me um dilema de ordem económica. Inadvertidamente, provei mel com pinhões e aquilo é delicioso. Resolvi começar a fazê-lo também.
Começei por ir orçar os preços e fui a um armazém grossista, aonde me deparei com uma escolha complicada. Tenho pinhões a 16 E, de origem chinesa, e pinhões a 30 E de origem portuguesa. È fácil entender, que a diferença de cotação, resulta da diferença do custo do factor trabalho, que na China não é tão bem pago e é certamente bem mais precário do que aqui.
Ali entendi que tinha em mãos a escolha real, sou eu que tenho o poder de exercer a pretensa escolha, que se diz que os consumidores exercem na economia de mercado. Mas não escolhem nada, quem escolhe sou eu e os outros, que produzem e vendem mel com pinhões, e todos escolhem o mais barato, para não ficarem em desvantagem nas prateleiras dos supermercados, face à concorrencia.
Mas eu não fiquei convencido ainda. Aquele barato que compro, significa mesmo precariedade como cá não existe, salários miseraveis, ausencia de capacidade reinvindicativa, desregulação, capitalismo puro, e é este o modelo que fixa os preços no mundo e que se impõe, porque vençe economicamente. É este o modelo que trabalha para os Belmiros, enfim, o seu mundo ideal. Por isso, comprar um produto feito desta maneira, é colocar mais um tijolo no edificio da exploração. Fálo-ia eu se não o soubesse.
Fazem-no tantos, que enchem as lojas da China ou que no supermarcado compram o mais barato, sem quererem saber de quanta politica há num frasco de qualquer coisa.

Se comprar os pinhões portugueses , não trabalho para a construção do edifício que nos faz recuar ao século XIX, mas terei o produto mais caro do mercado e muito poucos perceberão o que está em causa, ainda que eu inscreva este panfleto no rótulo. Seguramente não estarei no desfile da vitória final, mas vou comprar pinhões de Alcácer. E continuar a rosnar, quando vejo o Dr.Louçã em jogos florais , de solteiros e casados, e nunca, mas nunca, tendo uma palavra para aqueles que, por aqui, por serem empresários , também são precários, à merçê dos "negócios da China".

1 Comments:

Blogger JPN said...

O teu mel é tão puro como tu, amigo!

7:20 AM  

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